CCRJ - Vocês inscreveram apenas uma peça em Cannes e ela foi premiada. Um aproveitamento de 100%. O que representa essa conquista para vocês?
Bruno Bertani e Ricardo Saint-Clair - Com certeza foi o investimento em inscrição + fedex internacional mais rentável do Brasil (risos). Mas fazendo outra pergunta, porque inscrever só um peça? Além da questão custo (design e propaganda vivem realidades financeiras diferentes), a categoria design em Cannes estreou de forma bem conservadora. Tínhamos identidade visual, posters, flyers, calendários, environmental e embalagem. Parecia anuário da Graphis dos anos 80, quando hoje o design abrange muito mais do que isso.
Exemplo: criamos uma bandeja para um cliente para ser usada em bares que oferece funcionalidade para o dono do bar e valoriza o produto no momento exato do consumo. É uma peça de comunicação inovadora que não tinha lugar para inscrever. Não é uma embalagem... O que é então? Uma ação de guerrilha? Agora, para nós, que viemos da propaganda, ganhar um leão é fantástico. O reconhecimento não vem apenas do Brasil. Recebemos o contato de empresas de fora, sendo que uma de Milão já quer iniciar uma parceria em um projeto local.
CCRJ - Ter a categoria Design em um festival deste porte mostra que o mercado deve dar mais importância a este segmento?
Bruno Bertani e Ricardo Saint-Clair - Sabemos que grandes grupos de comunicação como WPP e Ominicon tem scritórios de design e below the line com taxas de crescimento no faturamento do grupo na ordem de 28 a 45%. Enquanto agências de propaganda crescem entre 3 e 6%. Isso ainda é pouco, já que na realidade estamos falando de 28% em cima de milhões e 3% em cima de bilhões. O fato é que o crescimento do design já deixou de ser apenas uma tendência. Não precisamos de pesquisa. Basta pensar na quantidade de TV que vemos hoje e que víamos há 10 anos atrás. Hoje a marca tem que encontrar a gente na loja, na internet, na rua, no botequim, na nossa geladeira. A questão é que esses meios ainda são tratados sob uma ótica publicitária antiga, que muitas vezes é superficial e efêmera. O design busca algo mais profundo, um relacionamento, uma experiência. Algumas agências sabem disso, e buscam se transformar em escritórios de idéias, onde a publicidade é apenas mais uma disciplina. Mas no fundo, sua estrutura ainda é financiada pela comissão da mídia tradicional.
Voltando a Cannes, os últimos Leões de Titanium representam projetos com foco no design: em 2006 foi o Barcode Project, em 2007 o Nike Plus que envolvia um trasmissor no tênis se comunicando com a internet e o iPod e nesse ano o Million, que colocou na mão de cada estudante da rede pública de Nova Iorque um celular com funcionalidades educativas que não telefona durante o horário de aula. As três agências/escritórios responsáveis por esses projetos são de médio/pequeno porte, com estrutura enxuta e equipe multidisciplinar.
CCRJ - Como surgiu a idéia do prato para o Hortifruti? Nos contem sobre o processo de criação.
Bruno Bertani e Ricardo Saint-Clair - O briefing surgiu da necessidade de estimular o consumo de saladas e produtos in natura da rede Hortifruti, um segmento que vem crescendo ano após ano. Convenhamos, nem todo mundo é capaz de salivar quando vê uma folha de alface. E mesmo que você goste e queira se alimentar de maneira saudável, o que temos mais disponível no Brasil é sempre gorduroso e oleoso, como coxinhas, pizzas e fastfood.
Para competir com isso, resolvemos criar a “salada fastfood”. O “prato pronto” reúne estímulo visual com praticidade. Injetar o garfo e a faca no mesmo molde comunica diretamente seu benefício e valoriza a marca como inovadora e preocupada em trazer soluções que gerem bem-estar e saúde para seus clientes. Um nova mídia, um novo ponto de contato. Chamamos isso de comunicação através do produto. Um objeto inovador e exclusivo para uma marca é uma mensagem concreta, sensorial e muito mais duradoura. O projeto levou mais de um ano para sair do papel. A criação
sofreu várias alterações para se adequar as questões técnicas, limitações
financeiras e normas da indústria alimentícia.
CCRJ - Vocês são sócios da Indústria Nacional e da Diálogo. Qual a diferença entre as duas empresas?
Bruno Bertani e Ricardo Saint-Clair - A Indústria Nacional é um escritório de design que já nasceu multidiscilplinar, quando a idéia de atuar em várias disciplinas era algo difícil de acreditar e apostar. Isso significa ir da identidade visual e do folheto passando pelo móvel, pelo design de produto e até por arquitetura, e ver como uma disciplina pode alimentar a outra.
Ela tem oito anos de mercado, inúmeros prêmios e tem sido uma escola para inúmeros profissionais que atuam no eixo Rio-São Paulo.
A Dialogo é uma empresa de design de produto, móveis e assessórios criada no fim de 2006 para satisfazer uma necessidade e um desejo. O desejo de produzir produtos autorais sem o compromisso com o logotipo. Aqui o cliente é qualquer brasileiro que compra nosso produto em uma loja ou pelo site www.dialogodesign.net . Já a necessidade pode ser traduzida pela frase de um cliente: "não aguento mais lay-out que não fica de pé!" Quando falamos de comunicação através de produtos, os processos, os materiais, toda a dinâmica é muito mais complexa. Precisávamos de uma empresa com foco no produto para realizar projetos que ficavam na nossa gaveta ou iam para a gaveta do cliente. Existe um gap enorme na nossa área de comunicação entre a idéia e realização quando a gente fala do tangível, do concreto. Existe um gap até no ensino entre o que é comunicação e o que é desenho industrial.
Somos dois diretores de arte que viemos de agências como Mccann e DPZ. Diretores de arte se metendo em design industrial. Um bom exemplo é a premiação em Cannes. A holding Indústria Nacional e Dialogo não tem como inscrever um "produto fantasma". Um objeto tem molde, quebra, arranha, tem peso, tem embalagem, tem transporte, tem descarte. Tem que valer a pena ser produzido pela indústria, ser vendido pelo comércio e ser comprado pelo cliente. Satisfazer todos esses players ao mesmo tempo não é nada fácil.
CCRJ - Após o prêmio, o que podemos esperar do design carioca?
Bruno Bertani e Ricardo Saint-Clair - O design carioca vai bem independente de Cannes. Vimos nos últimos anos escritórios de design dobrarem de tamanho, se profissionalizarem, abocamnhando contas e jobs que estariam em agências de propaganda. A cidade é historicamente uma cidade com verve criativa. Temos um grande mercado de moda, publicidade, produção cinematógrafica, TV e também design. O Rio é uma grife mundial e tem tudo para reafirmar seu espaço e prestígio nessa era da sociedade criativa. No entanto, prestar serviços de comunicação corporativa com inovação e relevância é um desafio para todos nós, seja no Rio, seja no resto do Brasil e do mundo. |